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O jogo mudou silenciosamente. E ninguém te avisou.

Profissão fragmentada e baixa libido profissional do médico em perspectiva
20 de maio de 2026 por
O jogo mudou silenciosamente. E ninguém te avisou.
Fernando Carbonieri
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No fim de semana de 16 de maio de 2026, tive a honra de ser convidado pelo Capítulo Piauí do Colégio Brasileiro de Executivos de Saúde — o CBEXs — para falar sobre liderança adaptativa no IV Fórum de Executivos em Saúde do Piauí. 

É a terceira vez que volto a Teresina, e cada vez que chego aqui eu entendo melhor por que esse encontro importa: não é só pela qualidade dos painéis. É pelo raro compromisso de reunir pessoas que se importam de verdade com o futuro da saúde, e que têm coragem de nomear o que está errado antes de propor o que precisa mudar. Ao amigo Newton Nunes e a toda a equipe do Chapter Piauí — obrigado pela confiança e pelo espaço. O que compartilhei no palco, começo a transformar em texto aqui. Para que chegue mais longe.

Em 2018, eu pedi para um amigo — um anestesista mentor de carreiras médicas, Solon Maia — que desenhasse para mim uma imagem. Eu queria capturar, numa única ilustração, o que sentia quando pensava no médico brasileiro da atualidade. Seja ele experiente ou não, a fragmentação da medicina impôs ao médico que ele virasse uma ferramenta que usa jaleco branco. Ele me mandou uma chave de fenda vestindo jaleco.

 ,

Guardo essa imagem até hoje. Não porque seja bonita. Mas porque é precisa demais para ser desconfortável de ignorar.

Uma chave de fenda não é uma ferramenta ruim. É uma ferramenta extraordinária — para o parafuso certo. O problema é quando você só tem aquele parafuso no mundo, e o mundo virou um armário cheio de parafusos Phillips, de parafusos allen, de encaixes que você nunca viu na sua vida. E ali está você, com a sua chave de fenda, tentando encaixar onde não encaixa, e achando que o problema é o parafuso.

O problema não é o parafuso.

Você passou décadas se tornando especialista. E o jogo mudou as regras enquanto você operava.

Não estou falando de incompetência. Estou falando de algo muito mais sutil e muito mais cruel: o jogo mudou silenciosamente, e ninguém te avisou.

Quando você entrou na medicina — não importa se foi nos anos 80, nos 90 ou nos 2000 — existia um contrato implícito. 

Você estudava muito, sofria na residência, acumulava técnica, construía reputação, e em troca recebia três coisas: prestígio social, realização profissional e segurança financeira. Era uma equação que fazia sentido. Era difícil, mas fazia sentido.

Esse contrato foi rescindido. Unilateralmente. Sem aviso prévio. Sem cláusula de rescisão.

E o que assusta não é que o contrato acabou. É que a maioria de nós ainda está tentando cumprir a nossa parte, sem perceber que a outra parte já foi embora.

O paciente que era seu. E que deixou de ser.

Deixa eu te perguntar uma coisa direta: quando foi a última vez que você falou com um paciente que era seu de verdade?

Não da instituição. Não do plano. Não do sistema. Seu.

Aquele paciente que ligava no seu celular quando tinha dúvida. Que te procurava pelo nome, não pela especialidade. Que levava os filhos e os pais para você porque confiava em você, não numa marca ou num convênio.

Progressivamente, ao longo de anos, esse paciente foi sendo transferido. Não de uma vez — isso seria perceptível demais. Foi aos poucos. Primeiro o prontuário passou a ser do sistema. Depois a agenda passou a ser gerida por um software. Depois o diagnóstico passou a dividir espaço com o que o paciente tinha lido no Google antes de chegar. Depois veio a inteligência artificial, os influenciadores de saúde, os protocolos de operadora que definem o que você pode ou não prescrever.

Hoje, o paciente é da Unimed. É do Bradesco Saúde. É da empresa que paga o plano para ele. E aqui está a parte que pouca gente fala em voz alta: o maior pagador de saúde no Brasil não é o paciente. Não é a operadora. É o empregador do paciente. É a empresa que oferece o benefício de saúde como parte do pacote de remuneração. E essa empresa quer, muito razoavelmente, controlar o custo desse benefício.

Você foi ficando de fora dessa equação. Não porque fosse descartável. Mas porque o sistema foi desenhado para funcionar sem depender da sua autonomia.

Os números que ninguém gosta de olhar

O PIB da saúde no Brasil gira em torno de R$ 1 trilhão por ano. É a segunda maior pasta do governo federal. É um mercado imenso, em expansão, que move uma parcela enorme da economia.

O PIB da saúde mundial é de aproximadamente 12 trilhões de dólares. Os Estados Unidos sozinhos consomem 5 trilhões. A gente é 1/60 tamanho do mercado americano de saúde.

Agora, com esse contexto na cabeça: entre 2015 e hoje, o salário médico nominal caiu aproximadamente 30%. Contando a inflação do período, a perda real de poder aquisitivo chega perto de 50%.

Em dez anos, o médico brasileiro perdeu metade do que ganhava.

Não por incompetência. Não por falta de dedicação. Mas porque estava com a cabeça dentro do maior mercado em crescimento do país, e sendo gradualmente tratado como engrenagem dentro desse mercado.

Existe uma frase que carrego comigo e que é absolutamente séria, não provocação:


 "É obrigatório que o médico seja rico. pois o médico que não o é, que não está seguro financeiramente, tende a negociar o seu paciente"

Fernando Carbonieri
Médico e Fundador do Grupo Academia Médica

Não como símbolo de status. Mas porque um médico sem segurança financeira não tem autonomia clínica real. E um médico sem autonomia clínica real não é médico — é funcionário com jaleco. Ou pior: é alguém que, em algum momento, vai negociar o paciente para sobreviver. E isso não é julgamento moral. É consequência estrutural.

A chave de fenda num mundo de parafusos desconhecidos

Voltando ao Cartoon do Solon.

A hiperespecialização foi, por décadas, a resposta correta para o avanço da medicina. Criamos especialistas em órgãos, em sistemas, em patologias raras, em procedimentos que exigem anos de treinamento dedicado. E isso salvou vidas. Isso ainda salva vidas.

Mas existe um custo que raramente aparece nos currículos Lattes e nas provas de títulos: ao nos tornarmos especialistas no 'o quê', perdemos de vista o 'quem'.

E esse quem, não é o paciente. É você que esta lendo este texto

O quem é o profissional por trás do CRM. O seu momento de vida. O seu propósito. A sua capacidade de enxergar além do dedão do pé direito. O seu repertório humano para resolver problemas que não aparecem em nenhum exame.

E é exatamente DE VOCê que o mundo mais precisa agora. O mundo precisa que você reaja. Que você mostre que se importa e expresse todo o seu potencial. 

O mercado não se importa com a sua especialidade. O mercado se importa com a sua capacidade de resolver problemas. E num ecossistema que inclui instituições, reguladores, influenciadores digitais, algoritmos de diagnóstico, inteligência artificial e um paciente que chega à consulta já tendo pesquisado os próprios sintomas — a sua chave de fenda, por mais afiada que seja, não é mais suficiente.

Isso não é pessimismo. É diagnóstico.

Então, o que fazer?

Aqui eu poderia te dar uma lista de cinco passos para reinventar a sua carreira. Mas você já sabe que o problema da medicina não se resolve em listas de cinco passos. Se resolvesse, eu não estaria trabalhando com carreiras médicas ha mais de 14 anos.

O que eu quero que você leve desta leitura é uma única pergunta. Uma pergunta que, na minha experiência de mais de uma década conversando com médicos de todos os tipos e tamanhos, é a mais honesta que existe:

O contrato que você assinou com a medicina ainda é o mesmo contrato que a medicina está te oferecendo hoje?

Se a resposta for sim — ótimo. Você é mais raro do que pensa.

Se a resposta for não — ou se você não tiver certeza — então a conversa mais importante que você pode ter não é com a sua operadora, não é com o seu chefe de serviço, não é com o conselho de medicina.

É com você mesmo.

Não para largar a medicina. Mas para entender o que, dentro dela, ainda merece o seu tesão. O que ainda acende aquela energia que te fez escolher essa profissão antes de saber o quanto ela ia te custar.

Porque existe algo que aprendi nesses anos todos, e que vou defender até o fim: a medicina é ainda uma das profissões mais apaixonantes que existem. Mas não porque ela é fácil. Porque ela é necessária. Porque ela coloca você na frente de pessoas que chegam com dores que não sabem resolver. E essa posição — essa responsabilidade — não tem equivalente em nenhuma outra atividade humana que eu conheça.

O problema não é a medicina.

O problema é que o jogo mudou. E ninguém te avisou.

No próximo post, vou te explicar por que o que você está sentindo provavelmente não é esgotamento. É desconexão. E a diferença entre esses dois diagnósticos muda completamente o tratamento.

Fernando Carbonieri é médico, fundador da Academia Médica e da Talent Match. Desde 2012 trabalha na conexão entre profissionais de saúde, instituições e as necessidades não atendidas do sistema. Escreve sobre carreira médica, liderança adaptativa e o futuro da saúde no Brasil.

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